Hipocrisia como criação de si

ARTE O ENGANO, ARTE DO ATOR

COSTA, Gustavo Bezerra do N.
Campinas: Editora Phi, 2016.
ISBN: 978-85-66045-43-7

c3c4b5_15f012985a7b4f28a9287e0d04e46764mv2_d_1903_2812_s_21410031967_botao-comprar

Como ser reto, afinal, quando a vida, ela mesma, mostra-se curva e o pensamento, sinuoso? “Só o mesmo age sobre o mesmo” – assim diz a mêtis. Se para criar a si é necessário converter prescrições em um princípio de ação, se é necessária uma áskêsis, então não poderia ela ser regida pelo logos racional, mas pela forma de inteligência conjuntural, prudencial e astuciosa, que se molda ao acaso para dominar o kairós, o tempo oportuno à ação.

Essa mestria ante as circunstâncias tem um nome: hipocrisia. E quem melhor para expressá-la, senão o ator, o hipócrita que incorpora máscaras reconhecendo nelas, inclusive, a ficção que ele mesmo é? E qual ator, senão o espírito livre nietzscheano, que no domínio da tensão entre a distância artística e a espontaneidade, entre o autoengano e o engano de si, torna-se o que ele é: “semelhante à existência”? Se a criação de si é uma virtude, diria Nietzsche, ela só pode ser alcançada “por meio dos mesmos recursos com os quais se alcança qualquer domínio em geral, em todo caso, não por meio da virtude”.

Lista de abreviaturas das obras de Nietzsche utilizadas | 11

Apresentação | 13

Prefácio: Para além das máscaras, a alegria de criar, a alegria de viver
Miguel Angel de Barrenechea | 15

Introdução | 21

Parte I
I Engano e autoengano | 33
II A hipocrisia como um problema moral | 59
III A hipocrisia como um problema ético e poiêtico | 117

Parte II
IV A hipocrisia como um problema extramoral | 185
V A hipocrisia, o sujeito e a máscara | 221
VI A hipocrisia e a criação de si | 256

Conclusão | 295

Referências | 300

Em Hipocrisia como criação de si. Arte do engano, arte do ator, Gustavo Costa, com competência e acuidade, faz uma análise original e instigante de um tema importante para várias áreas do saber, sobretudo, para a literatura e a filosofia: a hipocrisia. Destacando como fio-condutor a articulação entre o engano e o autoengano, o autor faz um percurso brilhante através de questões que envolvem as esferas moral, ética e estética para trazer à tona o objetivo de seu livro: propor uma via de interpretação ao problema da criação de si a partir da formulação do conceito de hipocrisia.

Constitui um dos pontos áureos da sua interpretação o questionamento acerca de como o termo hipocrisia veio a fazer parte da alçada moral, sob o viés da condenação, já que originalmente dizia respeito à arte do ator. Vinculada a uma prática artística, passa a ser associada a um vício moral e a designar, como arte do engano, um conjunto de práticas moralmente condenáveis. Muito interesse, nesse ínterim, é a reavaliação da hipocrisia sob uma perspectiva ético-estética, que envolve a compreensão moral, mas vai além dela.

É tratando desse último aspecto que Gustavo Costa aproxima o conceito de hipocrisia do pensamento de Nietzsche, tomando-a como fio condutor para uma articulação entre a compreensão extramoral das práticas de engano e a proposta de criação de si como obra de arte.

Ainda muitos aspectos poderiam ser destacados nesse magnífico livro, fruto de uma brilhante tese de doutorado, elogiada e aclamada por todos os membros da banca. Deixo ao leitor buscar os diversos caminhos e interpretações para um tema tão instigante, certamente muito bem guiado por uma análise que põe em relevo o conceito de hipocrisia em todas as suas nuances morais e estéticas.

Rosa Maria Dias

Esta entrada foi publicada em Publicações. Adicione o link permanente aos seus favoritos.