Minicurso – Quem Tem Medo de Bruno Latour? A Teoria do Ator-Rede (TAR) e a Virada Ontológica na Antropologia

Prof. Ms. Ernesto Belo (Philipps Univertität Marburg – Alemanha)
E-mail: ernestobelo@yahoo.com

Nos dias 03/07/2015 (sexta) e 06/07/2015 (segunda), das 11h30 às 13h30.
Na Sala 01 do Mestrado em Filosofia (CMAF), Centro de Humanidades, UECE (Av. Luciano Carneiro).
Com certificado. Inscrições na primeira aula.

A proposta da Teoria do Ator-Rede (TAR) de Bruno Latour se insere no movimento geral de mudança de paradigma que ocorre atualmente na antropologia e que leva o nome de virada ontológica. Partindo da constatação de que a dicotomia entre “natureza” e “cultura” foi desafiada e fortemente abalada pelo estudo de cosmologias e socialidades que postulam a coexistência entre uma multiplicidade de “naturezas” e a partilha de uma mesma “cultura” com outras formas de vida, objetos e artefatos, a virada ontológica na antropologia formula questões essenciais: o que acontece quando a antropologia social não mais coloca o antropos (o humano) no centro do mundo social? O que acontece quando o domínio do social não é mais independente como postula a tradição durkheimiana, mas se constitui em uma rede intensiva de relações que estabelece conexões complexas entre humanos e não-humanos?

Para tanto o projeto de Latour tem como axioma primordial uma antropologia simétrica ou plural, contraponto indispensável as tendências “epistemocidas” de uma antropologia assimétrica ou imperial, que pretende falar pelo outro, pensar para o outro e principalmente tomar o poder sobre o outro e ser a dona da verdade verdadeira ou dito de uma maneira menos arrebatada, ter a prerrogativa do universal. A proposta de antropologia simétrica parte dos conceitos práticos e discursivos presentes nos modos de existência nativos (suas cosmologias e socialidades) e os situa no mesmo plano epistêmico que o conhecimento antropológico. Assim por exemplo, as ideias elaboradas pelos pensadores indígenas sobre a origem e natureza dos humanos e não humanos são reconhecidas e tratadas como uma ontologia, no sentido de uma teoria das propriedades gerais dos seres/agentes/atores/actantes que povoam o cosmos e de seus modos de existência, de possibilidade, de duração, de devir e de relações. E o saber dos conhecedores indígenas recebe o estatuto de uma teoria do conhecimento, isto é de epistemologia. No contexto de uma certa renovação da metafisica na filosofia francesa contemporânea Latour propõe “uma pesquisa metafisica aplicada”, antidogmática e pluralista: “Se a metafisica é a disciplina inspirada pela tradição filosófica que pretende definir o equipamento de base do mundo comum, então a metafisica aplicada é para onde leve as controvérsias sobre as entidades que nos fazem agir e que não cessam de povoar o mundo de novas forças e de contestar outras. Nossa questão se torna então: como explorar a metafisica dos atores?” (Latour, Reajuntar o social. Uma introdução à Teoria do Ator-Rede, 2005). Logo se percebe que a vocação critica da virada ontológica na antropologia têm como ponto de mira nada menos que uma descolonização do pensamento. Uma nova ponte entre a antropologia e a filosofia, uma metafisica aplicada que não forma uma sistema dogmático, mas propõe um protocolo de experiência: sim, quem tem medo de Bruno Latour?

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